Desde que acordei hoje, certos pensamentos e recordações vieram direto à minha mente, me envolvendo numa série de perguntas, questões pendentes, além de uma série de lembranças relacionadas à tais assuntos. Fico divagando (como sempre), imaginando como certas pessoas se comportam, como elas agem, pensam, expressão o que há em sua mente e em seu coração... enquanto eu fico a comparar o que há no meu, o que há dentro de mim e o que eu expresso. Claro, a conclusão não poderia ser diferente : eu definitivamente sou um ser extremamente frio, distante, reservado, melancólico, niilista, indiferente, frígido, seco, e qualquer outro adjetivo que pode ser inserido nesse contexto. É muito simples observar isso, basta ver como as pessoas se mostram efusivas, expressivas, irradiantes, sejam quanto estão alegres, quanto estão tristes, com raiva, com desespero, até mesmo quando estão indiferentes e se mostram alheias a tudo que os cerca naquele momento. Mesmo aquelas mais reservadas, ainda demonstram tais sentimentos e tudo o que se passa no interior delas de uma forma muito mais vigorosa e expressiva do que o maior sentimento que sou capaz de demonstrar publicamente, por mais que este me arrebata o coração no momento.
Posso dizer que não me importo em ser assim, acho que isso é uma característica minha e lutar contra isso só me fará sofrer ainda mais, além do que, isto seria uma luta em vão e sem vencedores... porém, se torna praticamente incompatível qualquer tipo de convivência ou relacionamento com alguma pessoa ou com o mundo exterior como o todo. Não sei explicar minuciosamente o que se passa dentro de mim e explicar o porquê de eu ser (ou ter me tornado) dessa forma, mas posso dizer que isso provém de um total desencanto e desalento em relação à tudo que me rodeia, praticamente tudo. Eu posso identificar, analisar e entender num grau muito maior do que a maioria das pessoas têm capacidade, consigo entender muitas coisas que estão nas entrelinhas, consigo também ver um modelo ou um sistema e identificar cada elemento constituinte, além do seu funcionamento como um todo... e considero tais observações e análises muito mais interessantes e enriquecedoras para mim do que ter de interagir diretamente com tudo isso, ou ser mais um de seus componentes, sem nenhuma sombra de dúvida.
Não sei apontar o que pode me ter feito dessa forma, ou mesmo dizer que simplesmente nasci assim e isso faz parte de minha personalidade, porque pode ser ambas as hipóteses ou um conjunto dessas duas e várias outras... porém, o fato é que, independente de qual seja a razão de ser assim, isso não irá apontar nenhuma suposta solução para o meu caso, não mesmo, porque... para mim, isso é simplesmente um caso sem cura e irreversível, não há nada que me faria mudar de referencial quanto à isso e não há nenhum ser adormecido dentro de mim que um dia possa despertar e mudar como um toque de mágica isso que eu sou. Isso não existe, não mesmo, portanto é inútil insistir ou ainda tocar no assunto.
Por todo o tempo que lembro de minha existência fui cobrado por ser de tal forma, por ser tão distante e distinto das outras crianças e pessoas da minha faixa etária, por eu pensar e gostar de coisas que ninguém mais gostava, pensava ou mesmo entendia e por isso não conseguir interagir e participar do mundo exterior como supostamente deveria... seja por falta de interesse da minha pessoa, seja por total incapacidade e inaptidão. Essa inaptidão só fez crescer e se tornar mais evidente ainda com o passar dos anos, a ponto de me distanciar totalmente de TUDO e TODOS, em praticamente TODOS os sentidos, sob QUALQUER referencial.
Simplesmente não consigo e não desejo possuir e adotar a maioria dos valores vagais e estúpidos que a maioria adotam para si e tentam impor a todos comoo único aceitável e correto, isso não possui o menor valor para mim e não me desperta outro sentimento senão repulsa e/ou descaso. Aliás, me parece que nada do que vejo usualmente é capaz de me despertar algo melhor do que o mero e vulgar... descaso. É tudo tão desinteressante, estúpido, vagal, efêmero e repulsivo aos meus olhos e minha mente, que é preferível evitá-los e ignorá-los do que um dia possui-los e fazer parte de tudo isso, porque tenho mais do que certeza que isso só me deixaria doente e pertubado, mais do que já me sinto agora.
Esse sentimento de descaso e repulsa para com tudo que me soa vulgar e desinteressante só faz aumentar a cada dia, ganhar um contorno mais amplo e me fazer buscar mais ainda o isolamento e distanciamento de tudo aquilo que me cerca e me aflinge de qualquer forma, tornando-me assim cada vez mais preso e imerso na bolha que eu mesmo criei, onde eu tenho tudo aquilo que eu gosto e possui algum significado para mim, funcionando como minha válvula de escape para toda essa aflição e repúdio desse mundo que (infelizmente) habito, aonde eu posso desfrutar de meus devaneios e interesses sem ser pertubado por toda essa náusea que me rodeia e me deixa cada vez mais doente.
Isso é errado? aos olhos da grande maioria, claro que é... afinal, eu sou jovem, perfeito, condição financeira razoável, logo, deveria me preocupar mais em me divertir e "aproveitar" a vida o máximo possível ao invés de me trancafiar em quatro paredes e escrever sandices numa folha de papel ou num blog virtual. Porém, a sandice e essa mórbida reclusão me são muito mais interessantes e muito menos nocivas do que toda esse entreternimento artificial e mar de falsidades que está lá fora, não há nada que me atraia. Por mais que me sinta mal nessa clausura, me sentiria ainda pior nesta suposta liberdade.
Enfim, é isso que eu sou e me torno cada vez mais a cada dia... um ser recluso, apático, praticamente desprovido de emoções e de expressão, totalmente alheio ao mesmo tempo que totalmente indiferente em relação ao universo em que ele vive. E como já foi dito, isso é um processo irreversível, sem nenhuma chance de ser consertado ou de mudar esse referencial para algum menos mórbido. Por fim, hoje só me resta trilhar essa jornada talvez infrutífera que provavelmente não me guiará para lugar nenhum até um suposto fim dela, se é que haverá um final para ela, como haveria então um ponto no qual o infinito teria o seu fim.
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